O GSIM - Generic Statistical Information Model - Seção 1 (Introdução)¶
Este documento fornece uma explicação sobre o GSIM Statistical Classifications Model, com foco na aplicação ao projeto do Classificador de Natureza de Receita do Estado de Minas Gerais.
O que é o GSIM?¶
GSIM (Generic Statistical Information Model) é um modelo de informação desenvolvido pela comunidade estatística internacional para padronizar a forma como organizações estatísticas descrevem, estruturam e gerenciam informações ao longo de todo o ciclo de produção estatística, bem como para fornecer liguagem comum e framework conceitual para desenvolvimento de sistemas.
Seu propósito central é promover a padronização e a interoperabilidade, fornecendo uma linguagem comum para que sistemas e organizações "conversem" entre si.
Um modelo de informação é uma representação abstrata e conceitual que define objetos, seus atributos, relacionamentos e uma terminologia comum dentro de um domínio — no caso estatístico, por exemplo, classificações, variáveis e conceitos. Suas principais características são a abstração (focando no significado e propósito, e não na implementação técnica), a independência tecnológica, a possibilidade de reutilização por diferentes organizações e a promoção da interoperabilidade entre sistemas, permitindo comunicação clara e compartilhamento eficiente de informações.
Historicamente, a fragmentação de terminologias e sistemas entre organizações motivou sua criação. O GSIM evoluiu a partir do projeto inicial patrocinado pelo High Level Group (HLG) a partir de 2009, incorporando o modelo Neuchâtel (específico para classificações) em 2013, e vem sendo adotado como padrão desde então.
Estruturalmente, o GSIM é organizado em Groups (grupos de objetos de informação relacionados). Na versão 2.0 (dezembro 2023), o GSIM está estruturado em cinco grupos principais: Base Group, Business Group, Concept Group, Exchange Group e Structure Group. O Statistical Classifications Model faz parte do Concept Group, pois trata de objetos relacionados a conceitos, classificações estatísticas e itens que descrevem o significado das informações estatísticas.
Para o projeto do Classificador de Natureza de Receita, o GSIM oferece a estrutura para modelar o classificador como uma Statistical Classification hierárquica e normativa, onde cada código é um Classification Item, os grupos são Levels e o histórico de alterações deve suportar os conceitos de versão, atualização e o princípio da floating classification através da bitemporalidade.
Referências - Generic Statistical Information Model (GSIM) - GSIM: Statistical Classifications Model v1.1 - GSIM version v2.0 - GSIM version v2.0 - User Guide - GSIM old versions
Linha do Tempo¶
Junho 1999: Origem do Modelo Neuchâtel - Reunião em Neuchâtel, Suíça, com escritórios estatísticos da Dinamarca, Noruega, Suécia e Suíça com a participação de desenvolvedores da Run Software-Werkstatt - Objetivo inicial: Criar uma terminologia comum para classificações estatísticas - Resultado: Definição dos conceitos-chave e framework conceitual para desenvolvimento de bancos de dados de classificações - Princípios fundamentais estabelecidos: - Foco prático: Todas as organizações participantes planejavam usar o modelo em suas próprias implementações - Propósitos principais: Facilitar acesso e manutenção de classificações; garantir uso comum de classificações em diferentes áreas de estatística - Princípio central: "Documentar e atualizar uma vez (centralmente), reutilizar onde for relevante" - Relevância para o projeto: O Classificador de Natureza de Receita se beneficia do mesmo princípio: uma fonte única de verdade (banco de dados centralizado) elimina a duplicação entre SISOR e Excel
2002: Modelo Neuchâtel v2.0 - Versão 2.0 do modelo Neuchâtel lançada - Consolidação dos conceitos e terminologia desenvolvidos desde 1999
2004: Modelo Neuchâtel v2.1 - Statistics Netherlands juntou-se ao grupo Neuchâtel - Adicionado um novo objeto e um novo atributo ao modelo - Versão 2.1 do modelo Neuchâtel lançada - Princípios essenciais mantidos: - Flexibilidade: O modelo deve ser adaptável a diferentes necessidades e políticas - Independência de tecnologia: Não depende de software ou plataformas específicas - Acesso público e gratuito: O trabalho deve estar disponível para qualquer pessoa - Resultado prático: Cada organização implementou o modelo de forma diferente, adaptando às suas necessidades específicas (exemplos: BridgeNA, sistemas nacionais de vários países) - Relevância para o projeto: O modelo GSIM pode ser implementado em PostgreSQL + Django, sem depender de soluções proprietárias; permite adaptação às necessidades específicas do Estado de Minas Gerais (13 dígitos, 9 níveis, integração com SISOR)
2009-2011: Início do Projeto GSIM - Patrocinado pelo High Level Group for the Modernization of Statistical Production and Services (HLG) - HLG é um grupo de alto nível que reúne líderes de organizações estatísticas nacionais e internacionais - Objetivo: Criar um modelo de informação genérico para toda a produção estatística - Contexto: Muitos países já haviam implementado o modelo Neuchâtel (18 países listados: Austria, Belgium, Bulgaria, Canada, Croatia, Czech Republic, Denmark, Estonia, Germany, Greece, Ireland, Norway, Portugal, Slovak Republic, Slovenia, Sweden, Switzerland, Netherlands) - Após anos de experiência prática, surgiu necessidade de revisão do modelo Neuchâtel - O grupo Neuchâtel original não existia mais
2011: Workshop METIS e Início da Revisão - Discussão no Workshop METIS sobre possível revisão do modelo Neuchâtel - METIS: acrônimo para o grupo conjunto UNECE / Eurostat / OECD) para metadados estatísticos - Criação de grupo de trabalho conjunto: UN Expert Group on International Statistical Classifications + METIS Steering Group - Grupo reuniu especialistas em classificações e metadados estatísticos
2011-2013: Desenvolvimento e Integração - Integração do modelo Neuchâtel (específico para classificações) no GSIM mais amplo - Desenvolvimento colaborativo envolvendo múltiplas organizações estatísticas - GSIM - O que é: - Framework de objetos de informação que suporta todos os processos de produção estatística - Fornece nomes acordados, definições, propriedades essenciais e relacionamentos entre objetos de informação - Os objetos relacionados a classificações foram majoritariamente extraídos do modelo Neuchâtel - Versão 1.0 do GSIM lançada - Durante o trabalho de revisão, decidiu-se que o modelo Neuchâtel para classificações seria parte do GSIM no futuro
2013: GSIM Statistical Classifications Model v1.1 - O modelo Neuchâtel revisado tornou-se parte oficial do GSIM - Versão 1.1 do GSIM Statistical Classifications Model (dezembro 2013) - Publicado como anexo ao GSIM principal - Resultado: O modelo revisado é, na prática, um anexo ao GSIM; vários objetos e atributos foram alterados durante o processo de revisão - Pesquisa de uso (2013): - Questionário investigou uso de padrões relevantes a classificações - Respostas de 18 países/organizações internacionais: Australia, Austria, Canada, Croatia, Estonia, France, Germany, Ireland, Netherlands, New Zealand, Norway, Portugal, Slovenia, Sweden, Switzerland, United States, Eurostat, ILO - Resultados mostram ampla adoção do modelo Neuchâtel - Relevância para o projeto: O GSIM Statistical Classifications Model é a versão mais atual e revisada do modelo Neuchâtel; representa o estado da arte em modelagem de classificações estatísticas; garante alinhamento com padrões internacionais
2015-2023: Adoção e Evolução - Adoção crescente por organizações estatísticas nacionais e internacionais - Continua evolução baseada em experiência prática - Integração com outros padrões (SDMX, DDI, etc.) - O modelo continua sendo mantido e atualizado pela comunidade estatística internacional - Desenvolvimento de versões intermediárias (v1.2, etc.)
Dezembro 2023: GSIM v2.0 - Lançamento do GSIM versão 2.0 (dezembro 2023) - Reestruturação organizacional: O GSIM v2.0 reorganizou-se em cinco Groups principais: - Base Group - Business Group - Concept Group - Exchange Group - Structure Group - Refatorações significativas em vários grupos, incluindo melhorias em Change Events, Process Steps, Exchange Channels e Referential Metadata - Relevância para o projeto: Embora o projeto utilize o GSIM Statistical Classifications Model (v1.1, 2013) como referência conceitual principal, a estrutura v2.0 representa a evolução contínua do padrão e pode ser consultada para entender o estado atual do GSIM
Termos relevantes¶
O GSIM Statistical Classifications Model organiza os conceitos de classificações estatísticas em uma estrutura de dois níveis principais:
- Tipos de objetos: definem os componentes de um banco de dados de classificações (por exemplo, séries de classificações, classificações estatísticas, versões, variantes, itens de classificação, níveis hierárquicos).
- Atributos: descrevem as propriedades desses objetos (por exemplo, códigos, rótulos, datas de validade, relação com outras classificações).
Essa estrutura funciona ao mesmo tempo como:
- Modelo terminológico → fornece um vocabulário padronizado (nomes e definições dos objetos e atributos), alinhado a outras referências internacionais.
- Modelo conceitual → explicita como esses objetos se relacionam entre si e como devem ser estruturados em um banco de dados de classificações.
No contexto do projeto do Classificador de Natureza de Receita de Minas Gerais, este modelo é utilizado como referência conceitual para o desenho do banco de dados. Nem todos os conceitos estão ainda implementados de forma plena na solução atual, mas o objetivo é que a modelagem caminhe progressivamente na direção desse padrão (especialmente no que diz respeito a versões, variantes e gerenciamento de histórico).
Terminologia básica¶
Segundo a norma ISO 704:1987 (E) – Principles and methods of terminology, um termo é uma palavra ou expressão que designa um conceito. O GSIM adota essa abordagem terminológica e a aplica a objetos e atributos de classificações estatísticas, de modo que cada termo (por exemplo, Statistical Classification, Classification Series, Classification Item, Version) corresponde a um conceito claramente definido.
Alguns termos centrais para o projeto:
- Série de Classificações (Classification Series)
Conjunto nomeado que reúne várias classificações estatísticas relacionadas ao mesmo domínio, ao longo do tempo. Cada série pode conter várias versões normativas (oficiais) e, eventualmente, variantes.
Exemplo: A “Série do Classificador de Natureza de Receita Orçamentária” reunindo todas as versões e variantes oficiais desse classificador ao longo dos anos.
- Classificação Estatística (Statistical Classification)
Uma única lista estruturada de categorias mutuamente exclusivas e exaustivas, válida para um período específico. Pode ser linear (plana) ou hierárquica (em níveis).
No projeto, cada versão normativa do Classificador de Natureza de Receita deve ser modelada como uma Statistical Classification específica.
- Versão da Classificação (Classification Version)
Uma classificação estatística é considerada uma versão quando: - é normativa (oficial),
- está associada a uma data de início de validade clara e, opcionalmente, uma data de término,
- e incorpora mudanças que alteram as fronteiras entre categorias
Mudanças meramente editoriais, como ajustes de rótulos, notas explicativas, inclusão de exemplos, não justificam por si só uma nova versão.
- Crítica para o projeto: é comum, na prática, tratar qualquer alteração como “nova versão” do classificador, o que dificulta a rastreabilidade de mudanças conceituais reais. A modelagem proposta busca separar formalmente versões, mudanças conceituais, de atualizações menores.
- Atualização de Classificação (Classification Update)
Uma classificação sofre uma atualização quando substitui uma instância anterior, mas sem alterar as fronteiras entre categorias. São ajustes menores, tais como correções de nomes, ajustes em notas explicativas, inclusão de elementos auxiliares (exemplos, remissivas, referências legais).
Se as mudanças menores forem muito numerosas ou significativas, pode-se optar por publicar uma nova versão oficial, mesmo sem alteração formal de fronteiras.
Ponto de atenção: o projeto precisa de regras claras de governança para decidir quando algo é “apenas atualização” e quando deve ser tratada como nova versão normativa.
- Variante de Classificação (Classification Variant)
Alteração de uma classificação estatística padrão, normalmente para atender necessidades específicas de uso, mantendo o vínculo conceitual com a classificação de origem, mas alterando o nível de detalhe/agregação das categorias.
No GSIM, variantes são particularmente importantes para permitir granularidade adicional ou agregações diferentes, isso sem perder a rastreabilidade em relação à classificação padrão.
Três tipos principais:
-
Variante de extensão
Mantém toda a estrutura original e acrescenta novos níveis inferiores (mais detalhados). É usada quando há necessidade de granularidade adicional em um determinado ramo da classificação, sem alterar a hierarquia original.Exemplo típico: acrescentar subcódigos específicos para necessidades estaduais ou setoriais, mantendo o código nacional como nível superior.
-
Variante de agregação
Parte de uma lista linear/plana para criar um ou mais níveis agregados superiores, formando uma hierarquia. É útil para relatórios em níveis mais macro (por exemplo, grupos de natureza de receita).Exemplo: agrupar códigos detalhados em grandes grupos temáticos para relatórios de alto nível.
-
Variante de reagrupamento (rearrangement)
Agrupa categorias existentes de modo diferente do desenho padrão. Pode ser:- Que não violam a estrutura base: mantêm todos os níveis e relações hierárquicas originais; novos níveis são inseridos acima ou entre níveis existentes, respeitando os agrupamentos da classificação de origem. Todos os itens e níveis originais são retidos.
- Que violam a estrutura base: substituem a hierarquia superior aos itens reagrupados, criando novos níveis que podem agrupar itens de ramos diferentes. Apenas os itens e níveis abaixo dos novos níveis são retidos.
Crítica para o projeto: O GSIM recomenda que esses arranjos sejam registrados explicitamente como variantes, para manter rastreabilidade e comparabilidade, o que não é feito atualmente.
- Base prescritiva vs. descritiva
Há um debate importante sobre se um banco de dados de classificações deve conter apenas as classificações padrão (base prescritiva) ou também variantes, reagrupamentos e usos alternativos (base descritiva). - Base prescritiva: foca nas classificações oficiais, normativas, definidas por um órgão padrão (por exemplo, Secretaria do Tesouro Nacional).
- Base descritiva: registra também como as classificações são efetivamente usadas na prática (variantes, agregações alternativas, recortes temáticos).
No caso do Estado de Minas Gerais, a proposta de modelagem aponta para uma base predominantemente descritiva, que: - mantém as classificações padrão como referência conceitual,
-
documenta as variantes criadas para atender relatórios operacionais e indicadores legais subnacionais, apesar de não explicitá-las como tal.
-
Classificação Flutuante (Floating Classification)
Abordagem em que o sistema de classificação permite atualizações e alterações relevantes sem necessidade de criar novas versões formais, utilizando datas de validade em todos os elementos para incorporar mudanças de forma ágil.
Em termos de modelagem, isso exige suporte a bitemporalidade ou, no mínimo, a registro de validade dos objetos (vigência no mundo real e, idealmente, vigência no sistema).
Crítica para o projeto: embora a documentação já mencione o princípio de classificação flutuante, sua implementação completa depende de decisões técnicas (por exemplo, desenho de tabelas de histórico e chaves substitutas) que ainda estão em evolução.
Articulação com outros glossários e boas práticas¶
O texto base do GSIM ressalta que existem diversos glossários e terminologias sobre classificações estatísticas, como:
- o Glossário de Termos de Classificação da ONU,
- o grupo METIS da UNECE (metadados estatísticos),
- além de documentos de boas práticas publicados por diferentes organismos internacionais.
O GSIM Statistical Classifications Model deve ser visto como complementar a essas outras fontes. Há amplo alinhamento conceitual, mas o GSIM faz algumas escolhas terminológicas próprias (por exemplo, uso preciso de “Statistical Classification” e “Classification Series”), em função do seu foco mais restrito em classificações estatísticas dentro do framework GSIM,
- seus objetivos específicos de servir como modelo de informação para bancos de dados de classificações.
Para o projeto de Minas Gerais, isso significa que a terminologia do GSIM é adotada como referência principal para o desenho do modelo de dados, mas continua sendo importante consultar glossários e boas práticas da ONU/UNECE para garantir compatibilidade terminológica e conceitual com o ecossistema internacional.